De um trem de imagens

Não sai da minha cabeça o realismo da imagem de um homeless arqueado sobre um lixo, em San Francisco/U.S.

Paulo de Tarso Porrelli (*)

Recatado no recanto das minhas idiossincrasias, num daqueles contáveis dias realmente frios na Noiva da Colina (eis o codinome de Piracicaba/SP), pego-me digitando tais pensamentos com força e velocidade mediúnicas.

Recorrentemente o saudoso João Primo Carloni visita as minhas memórias trazendo-me serenidade na dose ideal nesses tempos de caos.

 “Pede porque a vida escuta... Então, pede alto, Paulo”; parece soprar ele toda vez fraternalmente ao pé do meu ouvido.

Com o João Primo Carloni e a premiada jornalista e historiadora Luiza Villaméa eu tive a honra de percorrer o litoral catarinense mostrando a eles, e eles aos leitores da Revista IstoÉ, a saga da baleia-franca-austral.

De junho a novembro essa espécie gigante de mamífero marinho singra o Atlântico desde a Antártida, para procriar e amamentar filhotes se fazendo avistar facilmente a partir das tantas praias, topos dos morros das baías ou das pontas das enseadas que se estendem majestosamente de Laguna até Florianópolis.

São espetáculos que fomentam ano a ano o segmento do turismo de observação naquele trecho de 130 quilômetros da costa sul brasileira.

Observador atento de tudo e todos em redor, e mais apuradamente de si mesmo, João Primo Carloni pegou o gosto pela fotografia nas viagens de trem com o avô mineiro Odílio.

 “Ele educou o meu olhar”, contou-me o apaixonado neto João numa das nossas entusiásticas prosas.

Autodidata, João Primo Carloni foi durante mais de 15 anos editor-chefe de fotografia da IstoÉ. Aos 44 anos ele nos deixou; era um sábado, 8 de julho de 2006.

Em seu acervo um legado de quase 20 mil fotos.

Algumas foram obras de exposições, outras estão no livro Terramar, de 1999.

A mostra Cotidiano foi sucesso de público em 2001 na Pinacoteca do Estado, na capital paulista. Pouco à frente eu tive a alegria de poder levar essa exposição à Florianópolis e de trazê-la à Piracicaba.

Nela os visitantes puderam apreciar registros em preto e branco de cenas nuas e cruas que o João Primo captou e eternizou durante as suas reportagens pelo mundo.

 Não sai da minha cabeça o realismo da imagem de um homeless arqueado sobre um lixo, em San Francisco/U.S.

Caipira destemido sei que nos bancos universitários eu jamais aprenderia o que aprendi dentro e fora do jornalismo, como o fiz encarando o batente sob a batuta de mestres que a vida abençoadamente colocou no meu caminho, como o amigo-relâmpago João Primo Carloni.

Dentre eles, a minha reverência também a: Evaldo Vicente, Jaime Luís, Diógenes Banzatto, Jamil Neto, Carlos Eduardo Gaiad, Fernando Vieira de Mello (pai), Antônio Freitas, Ana Maria Penteado, Leda Cavalcanti, Maria Elisa Porchat, Anchieta Filho, Pedro Bassan, Marcelo Parada, Paulo Caveira, Luiz Inaldo, Aureliano Biancarelli, Roberto Cabrini, Mariano Boni de Mathis, Leda Pasta, Teresa Garcia, Pasquale Cipro Neto... A lista é grande, feliz de mim!

Sabemos que a palavra mal utilizada vem gerando severos conflitos em todo o mundo - civilizações a fio. E no silêncio de suas fotos João Primo Carloni nunca precisou de uma letra sequer, para nos contar histórias.

(*) Paulo de Tarso Porrelli é escritor e jornalista com o nome associado ao trabalho em rádio, comunicação corporativa e televisão (tarsoporrelli@outlook.com).