Psicóloga explica suicídio por dificuldade com frustrações e distorções cognitivas

Excesso de tecnologia aumenta as relações superficiais

 

 

A psicóloga e palestrante Ana Gláucia Lima explica o suicídio pela dificuldade em lidar com frustrações e às distorções cognitivas (percepções equivocadas da realidade e dos outros).

 

Segundo ela, o excesso de tecnologia contribui para esses dois fatores.

 

Tanto pela falsa sensação de controle sobre tudo e de forma imediata, quanto por aumentar as relações superficiais e as ilusões.

 

Em sua visão, o corte radical da Internet é um erro, assim como a proibição.

 

Ela indica escuta, orientações e aceitação dos limites da vida, entendendo que é possível ter outras alternativas quando algo não acontece como o planejado.


Controle imediato nas pontas dos dedos


Ana Gláucia Lima mencionou que a tecnologia indica o controle no toque dos dedos e de forma instantânea, o que é muito diferente da vida real, dificultando o entendimento diante das frustrações.

 

“Entre os mais jovens o impacto psicológico e emocional é maior porque nasceram na era tecnológica, sem conhecer outra realidade”.

 

Para agravar, segundo ela, são crianças e adolescentes que lidam com pais estressados também por conta da competitividade e imediatismo que a tecnologia trouxe à sociedade.


“Muitos pais estão tão cansados que acabam negligenciando a orientação, a escuta e a busca por outras atividades sem tecnologia.

Proibir o uso da Internet só aguça mais a curiosidade e o interesse. O ideal é ocupar parte do tempo com outras opções de lazer, mas isso demanda tempo, disposição e muitas vezes é preciso forçar, mas vale a pena priorizar esse investimento”, mencionou a psicóloga.


Relações superficiais e ilusões


Além da ilusão de controle e de respostas sempre rápidas, a Internet traz as redes sociais e suas relações superficiais.

 

“A sociedade ocupa seu tempo livre se relacionando com muitas pessoas de forma veloz, mas não investe em passar algum tempo com um amigo”, comentou a psicóloga.

 

Ela alertou para a falta de intimidade e aconchego e para o risco da solidão.

 

Frisou também que a superficialidade traz uma distorção cognitiva dos fatos e dos outros, que parecem sempre mais felizes e bem resolvidos.

 

“Naturalmente fazemos um movimento de pareamento, nos comparando com os demais. Só que a Internet ampliou muito o acesso a essas comparações. E na cultura do parecer as pessoas buscam status e poder financeiro, só que há tanta gente bem sucedida com depressão que é chegado o momento de refletir sobre os valores que realmente importam”.


O perigo dos falsos otimistas da Internet


Para piorar, a profissional cita o modismo dos “super otimistas” das redes sociais e plataformas de vídeo, que colocam toda a responsabilidade das conquistas em quem os assiste.

 

“São pessoas que ficam dizendo principalmente aos jovens que eles devem se esforçar, lutar, que são capazes, que conseguem e que tudo é possível. Dessa forma, os adolescentes se sentem sobrecarregados e quando não atingem o resultado esperado, se frustram de forma desproporcional, se sentem incapazes, acreditando que a culpa pelo resultado errado é 100% deles”, destacou a psicóloga.

 

O otimismo realmente seria buscar outras formas de se sentir feliz quando o plano A não funcionou. Ou enxergar coisas boas, apesar das dificuldades. 


Falta de visão diante das frustrações


Ana Gláucia alertou para o reducionismo a uma só possibilidade e a uma só solução.

 

“Os problemas e dificuldades são como uma onda e passam. Devemos fazer o que nos compete e sabermos esperar passar o que não depende de nós. Mas esse jeito acelerado e imediatista pode implicar na distorção de enxergar o problema como a própria vida e, sem plano B, C ou D, a saída seria a morte, o que não é verdade”.


Validar a dor


A psicóloga e palestrante destacou que a sociedade deve validar a dor, ainda que seja desproporcional, porque quem a tem está, de fato, sofrendo, embora muitas vezes de forma superdimensionada por sua distorção cognitiva.


Ana Gláucia aconselha a disposição em ajudar uns aos outros com atenção, escuta e orientações.

 

Quanto aos pais, ela alerta que autoridade não é agressão física ou verbal.

 

Mas que as regras são essenciais para dar segurança a quem ainda não tem autonomia para discernir por si próprio.

 

Ela alertou que muitos pais estão adoecidos emocionalmente e tão cansados que não conseguem ser modelo para os próprios filhos.

 

“A reflexão sobre os valores, como ocupamos nosso tempo e para quais resultados pode fazer diferença mundialmente”.

 

 

Por Carolina Godoy/Foto: Divulgação